Agostinho da Cruz (1540-1619)



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Na Ribeira do Lima fui Nascido

Na ribeira do Lima fui nascido, 
Na do Mondego e Tejo fui criado,
E na serra, em que vivo envelhecido,

Onde esperando estou o desejado
Fim dos meus longos anos mais vizinho,
Quanto de cada vez mais alongado.

Perdi-me Dentro em Mim

Perdi-me dentro em mim, como em deserto,
Minha alma está metida em labirinto,
Contino contradigo o que consinto,
Cem mil discursos faço, em nada acerto.

Vejo seguro o dano, o bem incerto;
Comigo porfiando me desminto,
O que mais atormenta, menos sinto,
O que me foge, quando está mais certo.

E se as asas levanta o pensamento
Àquela parte, onde está escondida
A causa deste vario movimento,

Transforma-se por não ser conhecida,
Porque quer a pesar do sofrimento
Pôr as armas da morte em mão da vida.

Ao Triste Estado

Passa por este triste vale a primavera,
As aves cantam, plantas reverdecem,
As flores pelos campos aparecem,
O mais alto do louro abraça a hera,

O brando mar menos tributo espera
Dos rios, que mais brandamente decem,
Os dias mais fermosos amanhecem,
Não para mim, pois sou quem dantes era.

Espanta-me o porvir, temo o passado;
A mágoa choro de um, doutro a lembrança,
Sem ter já que esperar, nem que perder.

Mal se pude mudar tão triste estado;
Pois para bem não pode haver mudança,
E para maior mal não pode ser.

Os Versos, que Cantei Importunado

Os versos, que cantei importunado
Da mocidade cega a quem seguia,
Queimei (como vergonha me pedia)
Chorando, por haver tão mal cantado.

Se nestes não ficar tão desculpado
Quanto mais alto estilo merecia,
Não me podem negar a melhoria
Da mudança, que diz dum noutro estado.

Que vai que sejam bem ou mal aceitos?
Pois não os escrevi para louvores
Humanos, pelo menos perigosos,

Senão para plantar em tenros peitos
Desejos de colher divinas flores
À força de suspiros saudosos.

Ao Pecado Original

Se sendo, meu Senhor, por vós formado
Adão, antes de ser o mal nascido,
Pecou, que fará quem foi concebido
Nas entranhas, que já tinham pecado?

Comer de um fruito só lhe foi vedado,
Tudo o mais a seu gosto concedido,
E por uma só vez haver caido,
Por muitas ser não posso levantado.

Tão fraca ficou minha natureza,
Que levantar não deixa o pensamento
Da terra, a que está atada e presa,

Tão imiga do meu merecimento,
Que se morder não pode na pureza,
Não deixa de ladrar um só momento.

Elegia da Arrábida

Alta Serra deserta, donde vejo
As águas do Oceano duma banda,
E doutra já salgadas as do Tejo:

Aquela saüdade que me manda
Lágrimas derramar em toda a parte,
Que fará nesta saüdosa, e branda?

Daqui mais saüdoso o sol se parte;
Daqui muito mais claro, mais dourado,
Pelos montes, nascendo, se reparte.

Aqui sob-lo mar dependurado
Um penedo sobre outro me ameaça
Das importunas ondas solapado.

Duvido poder ser que se desfaça
Com água clara, e branda a pedra dura
Com quem assim se beija, assim se abraça.

Mas ouço queixar dentro a Lapa escura,
Roídas as entranhas aparecem
Daquela rouca voz, que lá murmura.

Eis por cima da rocha áspera descem
Os troncos meio secos encurvados,
Eis sobem os que neles enverdecem.

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às plantas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo mil segredos,
Cujas primeiras letras vou cortando
Nos pés doutros mais verdes arvoredos.

Assim com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo
Que outras que há, ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razão, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.

Ali me chamo cego, ali perdido,
Ali por tantos nomes me nomeio,
Quantos por culpas tenho merecido.

Ali gemo, e suspiro, ali pranteio;
Ali geme, e suspira, ali pranteia
O monte, e vai de meus suspiros cheio.

Ali me faz pasmar, ali me enleia
Quanto colhendo estou da saüdade,
Que por toda esta terra se semeia.

Ora me ponho a rir da vaïdade,
Ora triste a chorar com quanto estudo
Erros solicitei da mocidade.

Tudo se muda enfim, muda-se tudo,
Tudo vejo mudar cada momento:
Eu de mal em pior também me mudo.

Soía levantar meu pensamento
Assentado sobre estas penedias
Duras, eu duro mais nelas me assento.

Punha-me a ver correr as águas frias
Por cima de alvos seixos repartidas,
Que faziam tremer ervas sombrias.

As flores, que levava já colhidas,
Passando pelos vales enjeitava
Por outras doutra nova cor vestidas.

O livre passarinho, que voava,
Cantando para o céu deixando a terra,
Da terra para o céu me encaminhava.

Cuidei que se esquecesse nesta Serra
A dura imiga minha natureza;
Mas donde quer que vou lá me faz guerra.

Oh! quem vira naquela fortaleza
Rodeada de fogo de amor puro,
Daquele amor divino esta alma acesa!

Quão firme, e quão quieto, e quão seguro
No campo se pusera em desafio!
E quão brando sentira o ferro duro!

Mas se agora de mim me não confio,
Se fujo, se me escondo, se me temo,
É porque sinto fraco o peito frio.

Alevantam-se os mares; e pasmo, e tremo:
Vejo vento contrário, desfaleço,
A corrente das mãos me leva o remo.

Confesso minha culpa, bem conheço
Que por mais graves males que padeça
Menos padecerei do que mereço.

Mandais, Senhor, que busque, bata, e peça,
Eu busco, bato, e peço a vós, Senhor,
Sem haver cousa em mim que vos mereça.

Com os braços na Cruz, meu Redentor,
Abertos me esperai, co lado aberto,
Manifestos sinais do vosso amor.

Ah! quem chegasse um dia de mais perto
A ver cos olhos de alma essa ferida,
Que esse coração mostra descoberto!

Esse, que por salvar gente perdida
De tanta piedade quis usar,
Que deu nas suas mãos a própria vida.

A sangue nos quisestes resgatar
De tão cruel, e duro cativeiro,
Vendido fostes vós por nos comprar.

Padecestes por nós, manso Cordeiro,
Pisado, preso, e nu entre ladrões,
Ardendo o fogo posto no madeiro:
Arçam postos no fogo os corações.

Os Olhos Meus dali Dependurados

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.

Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.

Da Oração

Doce quietação de quem vos ama,
Em serviços, Senhor, que tanto quanto
Amado sois, tão longe o fim de tanto,
Subindo mais, e mais, mais se derrama:

Ardendo por arder em viva chama
De amor do vosso amor, a voz levanto;
Sinto, suspiro, choro, colho, e planto
Ao som doutra suave que me chama.

Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?
Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?
Onde fugir se pode uma de duas?

Morto por quem o mata que pretende,
Ou que extremos de amor há que nos negue
Quem culpas nossas chama ofensas suas?

À Morte 

Os correos da morte são chegados,
Por caminhos antigos, impedidos,
Mal com meus olhos, mal com meus ouvidos,
Mal com meus pés, do chão mal levantados.

E mal, por não chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco, meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossivel será serem contados.

Se não viera a morte acompanhada
Da conta, que dar devo tão estreita,
Não fora tão penosa imaginada.

Mas a que vivo ou morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na cruz pregada,
Onde o ladrão contrito não se enjeita.

Na Condição da Vida Humana

Verdes bosques da Serra
Por antre penedias
Por mãos da natureza repartidos.
Que me fica na terra
No fim já de meus dias,
Tristes tão nesciamente consumidos,
Se não dobrar gemidos
Envoltos na lembrança
De tamanha cegueira,
Pois que na flor primeira
Trabalhei por cortar minha esperança ?
Ah! quem se consumira
Desta magoa primeiro que caíra !

Por mais que se combata
Com furiosos ventos,
O mar fora não sahe do limitado,
A creatura ingrata
Com leves movimentos
Se desmanda do que lhe está mandado !
Oh! desventurado.
Triste modo de vida!
Iniiga liberdade !
D’amor suavidade.
Que meus pecados deixam destruída !
O mar guarda a lei sua ;
Mas eu, Senhor, não guardo a minha, e tua!

Os montes levantados,
Os vales abatidos
No seu lugar antigo permanecem
Em parte avantejados;
Pois que não compungidos
Do sentimento d’alma que carecem;
E com tudo obedecem
Com nunca se mover,
Movendo-me á tristeza.
Diversa natureza
Da sua, a que não turba obedecer !
Livres montes, e vales
De sentir, e gemer, de chorar males.

Nas feras, e nas aves,
Posto que sensitivas,
Alheas de sentir perda tamanha.
Acho cousas tão graves,
Tão desconsolativas,
Que a mesma confusão me desentranha.
Tanto, que na montanha
Por tudo quanto vejo
Me desejo trocar.
Por ver melhor guardar
A lei, que contradiz o meu desejo.
Criado nestas feras
Entranhas d’aves mais, mais que de feras.

Inda nas pedras duras,
Na sorte differentes
Da minha, muito mais dest’alma imiga,
Não se criam branduras
Passadas, e presentes,
Onde por um descuido se periga ;
A sua lei antiga
Guardando firmemente
Sem mais contradição
Da sua condição,
Desta minha me fazem descontente,
Que sendo no bem dura,
No mal só por meu mal cria brandura.

Ai triste que desculpa!
Ou qual fingida escusa
Darei da vida minha mal gastada!
Eis o mar que me culpa;
A terra, que me accusa,
Mostrando merecer pena dobrada.
Toda cousa criada
Me afronta, e me reprende
Com justiça sobeja.
Toda me faz inveia,
E toda finalmente me suspende
Vendo-me, e nella vendo
Que louva o Greador, a quem offendo.

Oh! quanto mais se aggrava
Aqui neste deserto
A triste confusão da culpa minha !
Pois quando imaginava
Tamanho desconcerto
Poder remediar, quamanho tinha ;
Deste lugar me vinha
Huma doce lembrança.
Que me dava seguro
Deste meu peito duro,
Que como dantes inda aqui me cansa.
Que lugar, ou que parte
Acharei, que de mim mesmo me aparte!

Que presta, que aproveita
Fazer-se mil mudanças
No trajo, na feição, e no pacigo ?
Que faz quem tudo engeita,
Quem perde as esperanças
Do mundo, se se perde assi comsigo?
Se acabara comigo
Fazer apartamento
De mim, como fizera
Se mais força pusera
Na decomposição do pensamento
Quamanho bem lograra?
Em quantos grãos d’amor me levantara?

Mas pois que tal me sinto,
Que não sinto resguardo
Em mim para escapar do que mereço,
Que se promeíto, minto;
E se não minto, tardo ;
E tardando, de todo desfaleço.
A Vós, meu Senhor, peço
Graça, favor, ajuda.
No que tanto me vai ;
Pois a folha, que cahe
No chão, da verde planta, não se muda
Sem vossa permissão,
Quanto mais hum pesado coração !

Como pai piedoso
Em tudo liberal,
Fácil em perdoar, manso, benigno,
De mim tão vicioso.
Fero bruto animal.
De cada vez mais fero, e mais maligno,
De toda pena dino.
Vos mova á piedade
O muito que softresles
Vestido desta nossa humanidade,
Pregado num madeiro,
Antre lobos cruéis manso cordeiro.



A Seu Irmão Diogo Bernardes

Do Lima, donde vim já despedido,
Cavar cá nesta serra a sepultura,
Não sinto que louvor possa brandura,
Sem me sentir turbar do meu sentido.

A lã de que me vem andar vestido,
Torcendo em várias partes a costura,
Os pés que nus se dão à pedra dura,
Nem me deixam ouvir, nem ser ouvido.

O povo cujo aplauso recebeste,
Vendo teu brando Lima dedicado
A príncipe real, claro, excelente,

Louvará muito mais quanto escreveste.
De mim, meu caro irmão, menos louvado,
Louva comigo a Deos eternamente.


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