António Barbosa Bacelar (1610-1663)



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Glosa ao Soneto Fermoso Tejo Meu, Quão Diferente de Francisco Rodrigues Lobo

I
Fermoso Tejo meu, tristes suspiros,
Que do mar, e do peito derivados
Tudo lágrimas sois, que em vários giros
Uns correm mansos, e outros magoados:
Vós alegre buscais verdes retiros,
Eu chorando contemplo os meus cuidados
Quão diferente sois nessa corrente,
Fermoso Tejo meu, quão diferente.

II
Em riso alegre, em ondas carregado
Nos vimos, tu furioso, eu florescente,
Tu agora sereno, antes inchado,
Eu agora chorando, antes contente:
A ti mudou-te a sorte, a mim o fado,
A mim trocou-me a mágoa a ti a corrente,
Com esta diferença alegre, e triste,
Te vejo, e vi, me vês agora, e viste.

III
Mudou-se or ser, mudaram-se as correntes
Com diferente emprego as águas vejo,
Fontes os olhos choram às enchentes,
Corre suave em lágrimas o Tejo:
Tristes sim maravilhas, mas decentes,
Pois quando o rio, oh mísero desejo!
Tumba te solicita, espelho assiste,
Turvo te vejo a mim, tu a mim triste.

IV
Não basta, ó Tejo meu, que em campos de ouro
Brindes ao Sol a prata em ondas frias,
Nem que de escarcha o líquido tesouro
Corra por dilatadas galarias:
Então se enluta o campo, humilha o Touro,
Quando tu manso as pérolas enfias,
A pena não se muda, o gosto mente,
Alegre te vi eu já, tu a mim consente.

V
Ó fortuna infeliz, triste mudança,
Que do bem para o mal passas correndo,
Diga-o mentida essa corrente mansa,
Que embravecida foi dilúvio horrendo:
Muda-se em desengano o que é esperança,
Outro és já, Tejo meu, outro estou sendo:
A mim trocou-me em cinza um Sol ausente
A ti foi-te trocando a grossa enchente.

VI
Mas ai minha saudade, ai meu tormento,
Se assim dentro do peito mansa, e brando
Correrás, como o Tejo, doce, e lento,
Não matarás, passarás magoando:
O Tejo em si se alenta, eu desalento,
Ele pára esquecendo, e eu lembrando:
Esta é a triste diferença amante, e triste,
A quem teu largo campo não resiste.

VII
Ditoso tu, que vês ao Sol brilhante,
Quando eu cego uma sombra adoro, e sigo;
Em tid cada reparo é um diamante,
Em mim cada memória é um castigo:
Tu vês ao Sol em ti, eu cego amante
Não vejo o Sol, que sempre anda comigo:
E pois consiste a vida em ver um triste,
A mim trocou-me a vista, em que consiste.

VIII
Mas que digo, que pasmo, e que admiro
Entre penas, alívios, águas, flores,
O que é recreação, é já retiro,
Naufrágio as águas são, veneno as cores:
Morte o descanso foi, vida o suspiro,
Não quero suspensão, quero os rigores;
Pois consiste em penar, e estar presente
O meu viver contente, ou descontente.

IX
Não te enganes, ó Tejo, brando, e manso,
Quando mais descuidado em teu emprego
Que assim sereno fui no meu remanso,
Assim serás tu agora ledo, e cego:
Um raio consumiu o meu descanto,
Um trovão moverá o teu sossego,
Choremos pois do bem breves instantes
Já que fomos no mal participantes.

X
Conformes já nas lágrimas suaves,
Que é lisonja da dor sentir as penas
Gemendo tristes, e sentindo graves,
Em fotos de cristal, urnas amenas,
Nos serão canto as mais sonoras aves,
Nos serão pranto as fontes mais serenas:
Unidos neste mal, que a sorte altera;
Sejamo-lo no bem: oh quem me dera.

XI
Mas não, ó Tejo, meu, que é mais constante
A pena em mim, do que em teu curso a sorte,
Tu muita enchente tens, muita vazante,
Eu tive uma só vida, uma só morte:
Um dia corres turvo, outro brilhante,
Eu sempre tenho um ser, e sigo um norte:
Quem pudera alcançar, quanto distantes,
Que fôssemos em tudo semelhantes.

XII
Bem vejo que do Estio o fogo ardente
Te prende humilde em cárceres sombrios,
E que o fingido Outono altera, e mente
De tanto impulso os alentados brios:
Mas eu do Inverno o luto infaustamente
Visto, ou corra ou mar, ou sequem os rios;
Agora arrebatado o ar se altera,
Mas lá virá a fresca Primavera.

XIII
Se assim como hás-de ser, eu fosse agora,
Ou algum dia a ser tornasse o que era,
Menos a morte padecida fora,
Dobrada a pena agora padecera:
Mas quem tanto impossível cego implora;
Primeiro o bronze se tornará em cera,
Eu jamais largarei laços amantes,
Tu tornarás a ser quem eras de antes.

XIV
Com esta impaciência, este tormento,
O que perdeu um bem, a sorte apura,
Tu correndo no mar buscas assento,
Eu parado me chego à sepultura:
Tu tornarás com novo nascimento,
Eu ficarei deposto à perda dura;
Como de antes serás glória da esfera,
Eu não sei, se serei quem de antes era.


A uma Despedida

Agora, que o silêncio nos convida,
discursemos um pouco, ó pensamento;
demos um desafogo ao sofrimento,
pois lhe demos a pena sem medida.

Enfim, chegou aquela despedida
em que, perdido meu contentamento,
o mais que me ficou foi meu tormento,
o menos que deixei foi toda a vida.

Para que era ficar-me na memória
as lembranças de um bem tão malogrado?
Falta-me o bem, faltaram-me as lembranças.

Se verei outra vez tão doce glória?
Mas ó suave engano, ó vão cuidado!
Inda eu cuido outra vez em esperanças!



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