Voltar à página: “Os melhores poemas da língua portuguesa”
Salada Primitiva
Leitor, se amas o campo e a natureza,
Se és bucólico e rude,
E na tua rudeza
Só respeitas a força e a saúde;
Se às convenções da sociedade opões
O desdém pelas normas e preceitos,
Que trazem pelo mundo contrafeitos
Cérebros e corações;
Se detestas o luxo e se preferes,
Francamente, às senhoras as mulheres,
E tens, como um pagão da velha Esparta,
Pulso rijo, alma ingénua e pança farta;
Se és algo panteísta e tens bem vivo
Esse afagado ideal
Do retrocesso ao homem primitivo,
Que nos tempos pré-históricos vivia
Muito perto do lobo e do chacal;
Se um ligeiro perfume de poesia
Que se ergue das campinas
Na paz, no encanto das manhãs tranquilas,
Te dilata as narinas
E enche de gozo as húmidas pupilas,
Leitor amigo, se assim és, vou dar-te
“Se a tanto me ajudar engenho e arte”
Uma antiga receita,
Que os rústicos instintos te deleita
E frémitos te põe na grenha hirsuta.
Leitor amigo, escuta:
Vai, como o padre-cura, cabisbaixo
Pelos vergéis da tua horta abaixo
Quando no mês de Abril, de manhã cedo,
O sol cai sobre as franças do arvoredo,
Para sorver aqueles bons orvalhos
Chorados pelos olhos das estrelas
Nos corações dos galhos;
Passarás pelas couves repolhudas
– Cuidado não te iludas,
Nem te importes com elas!
Vai andando…
Mas logo que tu passes
Ao campo das alfaces,
Pára, leitor amigo,
E faz o que te digo:
Escolhe dentre todas a mais bela,
Folhas finas, tenrinhas e viçosas
Como as folhas das rosas,
E enchendo uma gamela
De água pura e corrente,
Lava-a, refresca-a cuidadosamente.
Logo em seguida (e é o principal)
Que a tua mão, sem hesitar, lhe deite
Um fiozinho de azeite,
Vinagre forte e sal,
E ouvindo em roda o lúbrico sussurro
Da vida ansiosa a propagar-se, que erra
Em vibrações no ar,
Atira-te de bruços sobre a terra
E come-a devagar,
Filosoficamente, como um burro!
Os Ciganos
Em marchas lentas, estropeadas,
aos solavancos pelas estradas,
cheios de andrajos e de lazeira,
de monte em monte, de feira em feira,
sob as faíscas do sol ardente,
vão os ciganos, tranquilamente.
Vão em magotes, em caravanas,
por entre as choças e as arribanas,
pelas charnecas, pelos valados,
olhos em fogo, rostos tisnados.
Magros fantasmas da vida errante,
quando eles surgem, perto ou distante,
de toda a parte se erguem clamores:
rogam-lhes pragas os lavradores,
e contra o bando roto e esfaimado,
ladram, investem os cães de gado.
Mas os ciganos são mais matreiros,
que os lavradores e que os rafeiros:
raça dispersa de maltrapilhos,
passam com bestas, fêmeas e filhos,
suportam pragas, chufas, maus tratos,
sofrem insultos e desacatos,
imploram, gemem, fingem-se doentes,
têm artimanhas e expedientes,
até que ao termo de tais canseiras,
à sombra antiga das azinheiras,
encontram sempre paz e repouso,
sob a ampla bênção do céu piedoso.
É dura a terra que vão pisando,
sentem revoltas, de quando em quando,
nas incertezas dum rumo vário,
contra as agruras do seu fadário…
Numa penúria faminta e reles,
olham os campos que não são deles,
frescas alfombras, nédias manadas,
vinhedos, hortas, eiras pejadas,
riqueza em barda, sorte às mão-cheias
abarrotando vidas alheias.
E, ó homem rico! tu tem cautela,
que o ciganagem não se rebela
Contra o destino que é desumano,
sem te dar perdas ou causar dano.
Nunca lhes negues esmola e abrigo:
senão, montados, medas de trigo,
alpendres, choças, serras de palha,
afora o caso que Deus te valha,
hás-de ver tudo, se os maltratares,
lambido em chamas por esses ares.
E ovelhas, cabras, chibatos, anhos,
o melhor que haja nos teus rebanhos,
as tuas éguas, os teus cavalos,
se te descuidas, hão-de roubá-los,
e hão-de vendê-los, raça embusteira,
de monte em monte, de feira em feira.
Almas sem crenças, que andais à toa,
sem ter no mundo quem se condoa
da vossa sorte rude e mesquinha,
que ideal, que sonho vos encaminha?
Onde ides, almas desemparads,
almas penadas, pelas estradas,
almas dispersas, almas errantes,
em corpos toscos e extravagantes?
De que países do extremo oriente
vides trazidos pela corrente
da mais sombria fatalidade?
Qual é, ciganos, a vossa idade?
Ninguém o sabe, nem vós sabeis
donde é que vindes e onde é que ireis.
Andais aos tombos, aos solavancos
pelas charnecas, pelos barrancos,
incendiando, roubando, e quando
a morte às vezes vos for ceifando,
tereis na terra paz e repouso,
sob a ampla bênção do céu piedoso!
Os Bois
Na doce paz da tarde que declina
após a faina, sob um sol ardente,
vão os bois recolhendo lentamente
pelas vias desertas da campina.
Atravessam depois, a cristalina
ribeira; e a flébil som de água corrente,
bebem sedentos, demoradamente,
numa sensual rudeza que os domina.
Mas quando, fartos d´água, erguendo as frontes,
os beiços escorrendo, olham os montes,
e ouvem cantar ao alto os rouxinóis,
eu fico-me a cismar, calado e triste,
que um mundo de impressões, que uma alma existe
nos olhos enigmáticos dos bois.