Voltar à página: “Os melhores poemas da língua portuguesa”
Aos Vencedores
Visto que tudo passa e as épicas memorias
Dos fortes, dos heroes, se vão cada vez mais,
Que tudo é luto e pó! ó vós que triumphaes
Não turbeis a razão nos vinhos das vãas glorias!
Não ergais alto a taça, á hora dos gemidos,
Esquecidos talvez nos gosos, nos regallos;
E não façaes jámais pastar vossos cavallos
Na herva que cobrir os ossos dos vencidos!
Não celebreis jámais as festas dos noivados,
Não encontreis na volta os lugubres cortejos!
– E se amardes, olhae que ao som dos vossos beijos
Não respondam da praça os ais dos fusilados!
Sim! – se venceste emfim, folgae todas as horas,
Mas deixae lastimar-se os orphãos, as amantes,
Nem façaes, junto a nós, altivos, triumphantes,
Pelas ruas demais tinir vossas esporas!
Pois toda a gloria é pó! toda a fortuna vã! –
– E nós lassos emfim dos prantos dolorosos,
Regámos já demais a terra–ó gloriosos
Vencedores! talvez, – vencidos d’amanhã!
Uma Canção de Hilário
O vestido de noivado
Da rainha de Kachmir
Era a diamantes bordado,
Como o luar num terrado!…
Parecia o céu estrelado,
Ou a visão dum “fakir”,
O vestido de noivado
Da rainha de Kachmir.
Se é a Via-láctea, em suma,
Não há olhar que destrince!…
Nenhuma vista, nenhuma
Jurará se é neve ou pluma,
Se é leite, ou astro, ou espuma,
Nem o próprio olhar do Lince…
Se é a Via-láctea, em suma,
Não há olhar que destrince!
Levava, nas mãos patrícias,
Leque de rendas e sândalo…
Oh! que mãozinhas… delícias
Para animar com blandícias,
Para beijar com carícias,
Que adorariam um Vândalo…
Levava, nas mãos patrícias,
Leque de rendas e sândalo.
Côr da lua, os sapatinhos
Eram mais sutis que o leque!…
Seu manto, púrpura e arminhos,
Não rojava nos caminhos,
Pois sua cauda, aos saltinhos,
Levava-a um núbio moleque.
Côr da lua, os sapatinhos
Entrou um moço estrangeiro…
Calou-se a alegria doida
Da grande assembléia, em roda!
E a brilhante sala tôda
Fitou o jovem romeiro.
Eis que, no meio da boda,
Entrou um moço estrangeiro…
Pegou no copo, com graça,
E brindou, em língua estranha…
E a rainha, a vista baça,
Como a um punhal que a trespassa,
Encheu de prantos a taça,
E o seu lenço de Bretanha…
Chorou baixo, ao ouvir, com graça,
Êsse brinde, em língua estranha!
Encheu de pranto o vestido,
Encheu de pranto os anéis…
E, sem soltar um gemido,
Chorou, num pranto sumido,
O seu passado perdido.
Os seus amores tão fiéis!…
Encheu de pranto o vestido,
Encheu de pranto os anéis.
Quem era o moço viajante
Que fêz turbar a rainha?…
Era o seu primeiro amante,
Tão leal e tão constante,
Que, do seu reino distante
Brindar ao Passado vinha…
Tal era o moço viajante,
Que fêz turbar a rainha.
Saudades de amor quebrado
Fazem lágrimas cair!
Por um brinde ao amor passado,
Ficou de pranto alagado
O vestido de noivado
Da rainha de Kachmir.
Saudades de amor quebrado
Fazem lágrimas cair.
A Visita
Hontem dormia à noute – e, eis que desperto
Sacudido d’um vento agudo e forte,
Como um homem tocado pela Morte,
Ou varrido d’um vento do deserto.
Accordei – era Deus, que de mim perto,
Me dizia: Alma sceptica e sem norte!
É preciso que creias e te importe
Adorar o Deus Uno, Eterno, e Certo!
É preciso que a fé cresça em tua alma
Como no inutil saibro a verde palma,
Verme! filho da Duvida–Eis-me aqui!
Eu sou a Espada o Antigo, o Omnipotente!
Crê barro vil! – Mas eu, descortezmente,
Voltei-me do outro lado e adormeci.
As Catedrais
Como vos amo ver, ó catedrais, sozinhas,
A recortar o azul das noites consteladas…
Erguidos coruchéus, místicas andorinhas
– Ó grandes catedrais do sol ensanguentadas!
Como vos amo ver, pombas alvoroçadas,
Ogivas ideais, anjos de puras linhas,
Catacumbas sem luz, aonde embalsamadas
Dormem, de mãos em cruz, as santas e as rainhas!
Em vão olhais o Céu, sagradas epopeias!
Flores de renda e luz, de incenso e aromas cheias,
Aves celestiais, banhadas da manhã!
Em vão santos e reis, ó monges dos desertos,
Em vão, em vão rezais, sobre os livros abertos
– O Céu, por que chorais, é uma ficção cristã!
Mysticismo Humano
A alma é como a noute escura, immensa e azul,
Tem o vago, o sinistro, e os canticos do sul,
Como os cantos d’amor serenos das ceifeiras
Que cantam ao luar, á noute pelas eiras…
Ás vezes vem a nevoa á alma satisfeita,
E cae sombria, vaga, e meuda e desfeita…
E como a folha morta em lagos somnolentos
As nossas illusões vão-se nos desalentos!
Tem um poder immenso as Cousas na tristeza!
Homem! conheces tu o que é a natureza?…
– É tudo o que nos cerca – é o azul, o escuro,
É o cypreste esguio, a planta, o cedro duro,
A folha, o tronco a flor, os ramos friorentos,
É a floresta espessa esguedelhada aos ventos;
Não entra o vicio aqui com beijos dissolutos,
Nem as lendas do mal, nem os choros dos lutos!…
– E os que viram passar serenos os seus dias…
E curvados se vão, ás longas ventanias,
Cheio o peito de sol, atravez das florestas,
Á calma do meio dia… e dormiam as sestas,
Tranquillos sobre a eira, entre as hervas nas leivas…
Vão cansados depois, entre os ramos e as seivas,
Outra vez sob o Sol – a sua eterna crença! –
Em fructos resurgir á natureza immensa,
E, aos beijos do luar, descansarem felizes,
Da bem amada ao pé, no meio das raizes!
Morrer é livramento! oh deve saber bem
Sentir-se dilatar na Natureza mãe!
Ser tronco, ramo ou flor, nuvem, herva ou alfombra,
A rosa que perfuma, a arvore que dá sombra!
Estremecer na encosta ás nocturnas geadas,
E recortar o azul das noutes constelladas!
Oh pelo claro azul d’essas noites serenas,
Que o segador trigueiro entôa as cantilenas,
Tristes como a lua e o espinho dos martyrios,
E que atravez do azul parecem cair lyrios!…
Quando a brisa levanta as folhas indiscretas,
Noivam os rouxinoes e se abrem as violetas…
E a Natureza tem como um sabor de beijos,
Que obriga a soluçar a alma de desejos!…
Que segredos dirão nas brisas mensageiras,
Á doçura da lua, a flor das larangeiras,
O lyrio, a madresilva, os jasmins vacillantes,
Que foram já, talvez, seios fortes e amantes,
E que hoje’ á branca luz dos myrthos sideraes,
Conversam sobre o amor e os gosos ideaes
Do tempo, que a fallar corriam breve as horas,
Que seus olhos leaes tinham a côr d’amoras,
E debaixo do Ceu teciam longas danças,
Ao pé da amante meiga e de compridas tranças!…
No lago somnolento a flor do nenuphar
Talvez é um coração que abre para chorar!
O lyrio um seio bom, – e as violetas curvadas
São os olhos talvez das doces bem amadas!…
Feliz o semeador que vive entre os arados,
O campo, os lentos bois, longe dos povoados,
Entre os rijos irmãos humildes e trigueiros,
Que vivem sob o sol, á chuva, aos nevoeiros,
E quando á noute finda os suarentos trabalhos,
Vem a doce mulher buscal-o nos atalhos,
Cujo olhar como a lua é tranquillo e consola,
E descanta chorando á noute na viola!…
E os que andam pelo mar, alegres e contentes,
Entre as ondas e o Ceu, saudosos, negligentes,
Entre os cantos do vento, olhos fitos nos ceus,
Entre o azul, o escuro, e os frios escarceus,
Hombro a hombro o abysmo, – abysmo sempre aos pés,
Que dormem á poesia, á lua das marés,
E morrem uma noute, ó mar, aos teus emballos,
Deixando uns olhos bons e meigos a choral-os!
Eu por mim não terei um astro bom nos Ceus,
Nem uns olhos leaes que chorem pelos meus,
E que inda a fronte mal me obscureça a magoa,
Como espelhos d’amor já sejam rasos d’agua!…
Sósinho passarei, e não irei jámais,
Pelas murtas com ella ás tardes outomnaes;
De inverno não terei os consollos do lar,
Nem do estio a doçura immensa do luar;
Meus filhos não irão jámais colher os ninhos;
Ninguem virá á tarde esperar-me nos caminhos!
À Janela do Ocidente
Os deuses ou são mortos ou caídos,
Quais duros aldeões dormindo as sestas
Ou andam, pelos astros perseguidos,
Chorando os velhos tempos das florestas.
Os reis ressonam nas devassas festas:
Já os frutos do Mal estão crescidos:
– Ó Sol, há muito que tu já nos crestas!
– E aos nossos ais o Céu não tem ouvidos!
Há muito que já o Olimpo está vazio,
E no seio dum astro imenso e frio
É morto o Deus do Testamento Velho.
Apenas, sobre o mundo eterno e aflito,
Fausto rebusca o x do infinito,
E Satã dorme em cima do Evangelho.