Castro Alves (1847-1871)




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O Gondoleiro do Amor

BARCAROLA

DAMA-NEGRA

Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar…
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;

Sobre o barco dos amores,
Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
Do Gondoleiro do amor.

Tua voz é cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento.

E como em noites de Itália
Ama um canto o pescador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.

Teu sorriso é uma aurora
Que o horizonte enrubesceu,
— Rosa aberta com o biquinho
Das aves rubras do céu;

Nas tempestades da vida
Das rajadas no furor,
Foi-se a noite, tem auroras
O Gondoleiro do amor.

Teu seio é vaga dourada
Ao tíbio clarão da lua,
Que, ao murmúrio das volúpias,
Arqueja, palpita nua;

Como é doce, em pensamento,
Do teu colo no languor
Vogar, naufragar, perder-se
O Gondoleiro do amor!?

Teu amor na treva é — um astro,
No silêncio uma canção,
É brisa — nas calmarias,
É abrigo — no tufão;

Por isso eu te amo, querida
Quer no prazer, quer na dor…
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor.

O Livro e a América

(Ao Grêmio Literário)

Talhado para as grandezas,
Para crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
– Estatuário de colossos –
Cansado de outros esboços,
Disse um dia Jeová:
Vai, Colombo, abre a cortina
Da minha eterna oficina…
Tira a América de lá”.

Molhado ainda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa,
Um – traz-lhe as artes da Europa.
Outro – as bagas do Ceilão…
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.

Olhando em torno, então brada:
Tudo marcha!… Ó grande Deus!
As cataratas – para a terra.
As estrelas – para os céus;
Lá, do polo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar…
Eu quero marchar com os ventos,
Com os mundos… com os firmamentos!!!
E Deus responde – Marchar!

“Marchar!”… Mas como?…  Da Grécia
Nos dóricos Partenons.
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteões?…
Marchar com a espada de Roma
– Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo….
– Com as garras nas mãos do mundo,
– Com os dentes no coração?…

Marchar!… Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?…
Não!… Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir…
Lá brada César morrendo:
No pugilato tremendo,
Quem sempre vence é o porvir!

Filho do século das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro – esse audaz guerreiro,
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo…
Éolo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
De onde a Igualdade voou…

Por uma fatalidade
Dessas que descem do além,
O século que viu Colombo
Viu Gutenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A Ave da imprensa gerou…
O Genovês salta os mares…
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou…

Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto –  
As almas buscam beber…
Oh! Bendito o que semeia
Livros… livros à mão cheia…
E manda o povo pensar!
O livro caindo na alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar.

Vós, que o templo das ideias
Largo – abris às multidões,
Para o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse “rei dos ventos”
– Ginete dos pensamentos,
– Arauto da grande luz!…

Bravo! a quem salva o futuro,
Fecundando a multidão!…
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo,
Brada “Luz!” o Novo Mundo,
Num brado de Briareu… 
Luz, pois, no vale e na serra…
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!…

Quando Eu Morrer

Quando eu morrer… não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério…
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.

Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro o boca libertina.

Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério…
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.

Tem os fogos — errantes — por santelmo.
Tem por velame — os panos do sudário…
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário…

Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas…
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas…

Como deve custar ao pobre morto
Ver as placas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!…

Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito…
E um deles vos dirá “Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito.”

Outro: “Dei-o a meu pai”. Outro: “Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho”…
… Meus amigos! Notai… bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!…



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