Voltar à página: “Os melhores poemas da língua portuguesa”
Do Ciclo das Intemperies
1
Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas – podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia – e essa é a verdade – cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.
A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão
2
Quero dizer-te que esta magnólia não é a magnólia
Do poema de Luiza Neto Jorge que nunca veio
A minha casa – ela própria dava flor
Ela riscava nas folhas
Ela era grande mesmo quando a magnólia não crescia
Esta magnólia não é como a dela uma magnólia pronunciada
É uma magnólia de verdade a todo o redor — maior
E mais bonita do que a palavra
3
Nem ela sabe por onde te conduzo agora.
A chuva cai sobre a copa de ambas, quero dizer,
Sobre a chaminé da casa e sobre a planta
Sobre a magnólia pronunciada e a magnólia
Que cresce como a videira testamentária – mãe
Bíblica no eixo da casa. Se quiseres posicionar-te
Em relação à magnólia materna e à árvore que se abre nos versos
Ou entre ambas as faces da página
Perscruta no que te digo o aroma premeditado
Procura-o esmagando uma a uma as pequenas sílabas – foi esmagando-me, acredita,
Que aprendi o que sei hoje: há uma diferença
Entre a magnólia que nos cresce fora
E aquela que regamos com o sangue.
4
Se te puseres à escura a magnólia pode ser uma árvore de fruto
A escuta enche-nos de sumo como um poço no meio dos pátios
A magnólia enxerta-me nos pensamentos, é um profundo
Rumor na minha carne, a linha que me vai da mão
A outra mão. Ela não tem medo
De aproximar-se quando minha mãe me pega ao colo.
Ela levanta-me da terra
Como os tufões e os bandos dos pássaros.
5
Começo, pois, no alto a saciar-te. Explico-te o ciclo
Das intempéries e das migrações. Se puderes ficar em silêncio
Não te igualarás à magnólia, mas repousarás
Como o musgo que lhe cresce no tronco.
És tu que cresces, afinal. És tu que sobes
— Mesmo se já abandonaste a minha infância —
Aos ramos que te ofereço. Dou-te também
Poder para a arrancares deste poema
Ou até de roda a minha terra interior
E de a transplantares noutros lugares – nos versos seguintes.
Se a guardares como um tesouro verás como brilha
Como acende a pulsação dos pássaros – o seu canto,
Da ida e da vinda, aos teus ouvidos.
6
O tesouro é então a magnólia segredada entre nós dois
É o canto que circula entre os lábios, a seiva
Entre o nosso cérebro e o seu próprio coração.
O coração do poema é a magnólia ao vento. Abro
Os braços, as veias, e digo
Tu que te abrigas fora da casa. E a minha promessa
É esta – o banco que de pedra existe
Junto da magnólia permanece
Mesmo quando a sombra
Seca. E o pássaro parte. E a flor
Depois das chuvas não vem.
7
Magoa ver a magnólia cair. Acredita.
O relâmpago vem
Sobre ela. A tempestade.
As plantas são tão frágeis como as cabanas dos homens.
Somos muito frágeis os dois neste poema
Com o relâmpago, a cabana, com a magnólia aos ombros
Sem nenhum terreno pulmonar intacto
Para depois de nos olharmos um de nós dizer
Plantêmo-la aqui — aqui
É o meu pulso, a minha boca
É a retina com que procuras, é a madeira da porta
Com que te fechas em casa. Prometo-te
Eu nunca vou fechar os olhos
As mãos.
8
Prometo-te a palma da minha mão para a escrita.
Cerca-a de magnólias, cerca-me. Podes fechar a escrita
No interior da mão ou na boca dos livros
Podes esquecê-la ou libertá-la dos mil botões
Que ela sopra no interior dos homens.
Podes mandá-la àqueles que mais amas
Ou como pétalas e mensagens nas anilhas das aves
Aos teus próprios inimigos.
Podes desarmá-la para propagares as chamas.
Dou-te, como desde sempre, o poder
De escreveres na pele da minha mão
As promessas que te fiz. Sabes que existo
E que vou repetir-te todas as coisas outra vez.
As estações, por exemplo — não sou o único que o digo —,
Não rodam à maneira dos carrosséis no largo. No Outono
A magnólia é pensativa como o homem
Que te olha por detrás da janela onde te escrevo.
No Inverno os vidros vão embaciando – aproxima
A tua mão da paisagem que resta
Como se fora o lado do verbo que encarnou. Repara
No banco de pedra — ele está
Sobre ti.
Tu és a criança sentada
Que olha para o céu. Há um tesouro
No céu – um coração novo. Reconheces
A magnólia estelar? O interstício solar
Da pupila celeste? Ela está sobre ti
E contempla – é verdade que é pelas lágrimas
Que começam as visões.
Sim. Agora posso explicar-te o mistério das águas.
Debruça-te como ele quando escreveu no chão
Irás entender — elas jorram das palavras.