Voltar à página: “Os melhores poemas da língua portuguesa”
- Retrato da Beleza Nova e Pura
- Põem-me Onde Queima o Sol Toda a Verdura
- Bem Mostrou o Pintor Estilo Agudo
- Meu Pátrio Lima, Saudoso, e Brando
- Desaparecem Já Por Mais que Estendo
Retrato da Beleza Nova e Pura
Retrato da beleza nova e pura
Que com divina mão, divino engenho,
Amor retratou na alma, onde vos tenho
Das injúrias do tempo mais segura,
Não mostreis aspereza em tal brandura,
Por vos vingar de mim, vendo que venho
a tanta confiança, que detenho
Os olhos em tamanha formosura.
O resplendor do Céu, sem dar mais pena
A quem olha seus raios em direito,
A vista só por breve espaço assombra,
Mas vossa luz mais clara, mais serena,
Juntamente me cega, e abrasa o peito:
Vede o Sol que fará, de que sois sombra!
Põem-me Onde Queima o Sol Toda a Verdura
Põem-me onde queima o Sol toda a verdura,
Ou onde seu ardor a neve esfria:
Põem-me onde pelo meio o carro guia,
Ou onde cobre, ou mostra a luz mais pura:
Põem-me em baixa, ou próspera ventura,
No sereno da Lua, ou na sombria
Escura noite, em longo, ou breve dia,
Em sazão inda verde, ou já madura:
Em vale, em monte, em água, em fogo, em ar,
Nas estrelas me põem, ou no profundo,
Sprito livre, ou inda à carne atado,
Com nome escuro, ou claro em todo o mundo,
Serei qual fui, não deixarei de amar
A quem amei té gora desamado.
Bem Mostrou o Pintor Estilo Agudo
Bem mostrou o pintor estilo agudo
No retrato, senhora, que vos mando,
Pois não só o parecer foi retratando,
Mas os efeitos com mais alto estudo.
Se vai mudo ante vós, eu fico mudo;
Se surdo, e cego, bem cego, e surdo ando;
Se morto, a vida vai-se-me acabando;
Em fim que vai conforme a mim em tudo.
Mas na ventura fica avantajado,
Que vai (com gosto vosso) à vossa mão,
Onde será melhor visto, e tratado:
Mercês, que se deviam por razão
Ao próprio original, porque o traslado
Não vê, nem sente de que preço são.
Meu Pátrio Lima, Saudoso, e Brando
Meu pátrio Lima, saudoso e brando,
Como não sentirá quem Amor sente,
Que partes deste vale descontente,
Donde também me parte suspirando?
Se tu, que livre vás, vás murmurando,
Que farei eu, cativo, estando ausente?
Onde descansarei de dor presente,
Que tu descansarás no mar entrando?
Se te não queres consolar comigo,
Ou pede ao Céu que nossa dor nos cure,
Ou que trespasse em mim tua tristeza:
Eu só por ambos chore, eu só murmure,
Que d’um fado cruel o curso sigo,
Não tu, que segues tua natureza.
O rio que verás tão sossegado
Que te parecerá que se arrepende
De levar água doce ao mar salgado.
Desaparecem Já Por Mais que Estendo
Desaparecem já, por mais que estendo
Os tristes olhos de chorar cansados,
Os campos de mil flores matizados
Por onde o branho Téjo vai correndo.
Inda deles agora estive vendo
Uns brancos, e uns verdes retalhados,
Dos rodeios das agoas descuidados,
Que me fazem de mim ir esquecendo.
Pois que será passando aqueles montes!
Que valles irei vendo, e descobrindo,
Que tristes, e abafados horizontes!
A pena, que já disto vou sentindo,
No meu ardente peito novas fontes
De lagrimas correntes vai abrindo!