Fernão Rodrigues Lobo Soropita (c. 1550 – c. 1606)



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A uma Partida

Partistes-vos, e a alma juntamente
Em partes desiguais se me partiu;
A melhor, que era vossa, vos seguiu;
Ficou-me a outra, fraca e descontente.

Bem sei que a natureza o não consente,
Mas Amor, que mais pode, o consentiu,
Por que a fé que em presença vos serviu,
Também vos sirva agora, estando ausente.

Eu, sem mim e sem vós, não sei que espero,
Nem com que maravilhas me sustento
Nas sombras tristes do meu bem passado.

Só sei que cada dia mais vos quero,
E que por mais que possa o esquecimento,
Nunca poderá mais que meu cuidado.

De um Negro Namorado para a Sua Dama

Ao som de um berimbau Luís cantava
As queixas que uma gralha repetia,
E de outra parte um corvo lhe entoava.

Da sua negra ausente o perseguia
A saudade, que inda hoje o maltrata;
C’o pensamento nela, assim dizia:

“Inda que teu amor me pinga e mata,
Muito mais doce é que cuscuz quente,
Mais gostoso que inhame e que batata;

Que em toda a branca e a negra gente,
Não há de formosura mor tesouro,
Cara não há que a mim mais me contente;

Louras madeixas de cabelos de ouro
Podem viver com esse retorcido:
Desfeia as rosas o teu negro couro;

O colo, de alabastro guarnecido,
Traz os sentidos presos e contetes,
Não com branco alvo já de exalvicido;

Os olhos são muito mais excelentes,
E os beiços, que te pendem de mimosa,
Mostram os alvos e formosos dentes.

E claro, lógico está quanto és formosa;
Toda a afeição será, mas venturosa.

Discreta e avisada és, como pega,
Pois qual preta com ar mais prazenteiro,
Tremoço doce vente, arame esfrega.

Que coração tão duro e tensoeiro
Não abrandara se cantar te ouvira,
Quando ias lavar o calhandreiro.

Mas destas perfeições, boa parte tira
Seres em desfavores emperrada
Contra um cativo teu, que em vão suspira.”

Uma braga metem ai pé lançada;
Ela é negra ladina e eu sou boçal;
Eu cuidadoso, e ela descuidada.

Mas inda que mofino come meu mal,
Quero bem à primeira caravela
Que trouxe negros cá a Portugal.

Um ferrete me pôs para Castela;
Vender-me pode, e eu o que desejo,
Alforria não é, é poder vê-la.

Mas é mui longe do Mondego ao Tejo;
Todavia, eu me dou por satisfeito
Se esta chegar lá, já que a não vejo.

Sai pois, ó negra voz, do negro peito!
Leve-te o negro amor à negra dama,
Negra, de quem estou já negro feito;

Que a quem da negra o negro amor inflama,
Bem negro é, e bem negra a ventura
De quem de negro, negramente ama.

Negragem, negrigonia, negregura,
Negrura, negraria, negramento,
Negrança, negrasão e negradura,

São e terão, em negro sentimento,
Enquanto em mim durar amor negreiro,
Negros azos do meu negro tormento.

E se eu morrer neste negral marteiro,
Em negra campa e com negras cores,
Publique a negra causa este letreiro:

“Luís, retrato negro dos amores
Negros seus, aqui jaz; endurecida
Luísa negra o fez, com negras dores,
A quem a negra morte foi homicida.”

Quando o Sol Torna Donde Vos Deixou

Quando o Sol torna donde vos deixou,
Tanto com os vossos olhos se parece,
Que quando a alma o vê, mais reconhece
Que por retrato vosso lhe ficou.

Assim, no próprio Sol amor achou
Com que sempre presente vos tivesse,
Por que apartar um dia não pudesse
O que ele em tantos dias ajuntou.

Depois que o Sol me esconde a terra avara,
Quantas estrelas abre a noite rica,
Com tantos olhos cuido que vos vejo.

Mas nem a sorte assim com o Céu trocara,
Que inda que com vos ver tão belo fica,
A beleza não tem de meu desejo.

Do Grande Mar do Meu Tormento Antigo

Do grande mar do meu tormento antigo,
Como aurora d’amor sai a esperança,
Vestida já da luz que de si lança
O sol que eu sempre temo e sempre sigo.

Ao seu aparecer foge o perigo;
Aonde quer que a claridade alcança,
Rompe o véu negro da desconfiança
Que juntamente aprovo e contradigo.

Mas o secreto d’alma, inda toldado
Das nuvens negras com que antigamente
A cercou por mil partes meu cuidado,

Se a luz de tanta glória inda não sente,
São efeitos cruéis do mal passado
Que lhe não deixam ver o bem presente.

Sátira Contra o Amor

Afuera, afuera, pensamientos mios!
Começo logo a entrar por castelhano,
Por ver se o canivete tem bons fios.

Amor é tudo burla, tudo engano;
Faz em cada baralha mil maçadas,
E sabe mais trejeitos que um cigano.

Com três bonançazinhas mal franjadas,
Mais falsas que promessas de alquimista,
Vos traz as esperanças enforcadas.

Cuidais que descobris grande conquista;
Vindes depois a achar-vos num deserto,
Faminto o gosto, e mais faminta a vista.

E se chegais comas cousas mais ao perto,
Mandai correr a folha ao bem passado,
Achar-lhe-eis mil querelas em aberto.

Que cousa é ver um parvo namorado!
Surto a um canto donde enxerga a dama,
Conhece-o toda a rua, anda embuçado.

E como isto acertou de ser na Alfama,
Por um acento da matantaria,
Traz trapos na algibeira para a lama.

Outro, a que traz azado a picardia,
Vai-se ao Campo da Forca, onde, sem pejo,
Lhe desove no verde a fantasia.

Ali, num só momento dá varejo
A quantos pensamentos traz por casa,
Mais nédios que mulato de Alentejo.

Outro, que em afeição todo se vaza,
E por nobreza só de seus cuidados,
Tem diante d’amor cadeira rasa,

Traz seu par de conceitos afiados,
Que um dia ouviu no ralo a certas freiras,
E tem-se por farol dos avisados.

Outro, que cursa à tarde entre as padeiras,
Com botinha picada e ramalhete,
Preservativo contra as sardinheiras,

Namora-lhe os amores um grumete,
E não mantém por mais contra ele a guerra,
Que pela confiança do topete.

Outro, que traz a espada feita serra,
De matar cães que lhe ladram de noute,
E corre arrodelado toda a terra;

E não há um meirinho que lhe coute
A parvoíce, por demais de marca,
E lhe dê sobre isso infindo açoute.

Outro, que tudo traz fechado na arca,
E por não arrasar os seus segredos,
Namora à Boavista de uma barca;

Fala sempre consigo, torce os dedos,
E por que a compleição não perca rumo,
Come-lhe por dieta ovos e bredos.

Outro, curado como arenque ao fumo,
Com calção de azul vis e uma jaqueta,
Que quer que todo o céu lhe caia a prumo,

Zomba-vos do burato e da baeta,
E com uma capa só de arbim de Chaves,
Não perde em seus amores por soleta.

Outro, que anda enfronhado entre os mais graves,
Com bigode legitimo barreto,
Que de cá, donde vai, toca nas traves,

Mais hirto e mais agudo que um espeto,
Encerra-se a trovar um mês arreio,
E no fim dele, sai com um soneto.

Outro, galante como um camafeio,
Preza-se de anafil limpo escolhido,
E ele é-vos meado de centeio;

Conta o por receber e o recebido,
Vende-se por secreto à rapariga,
E vai-se como cântaro fendido.

Outro, com seis arrobas de barriga,
Namora uma menina de dez anos,
Que lhe chora no colo e dá-lhe figa;

Tem setenta no rabo, e traz abanos
Copados de canudo de ordinário,
E sai-lhe a bem querença dos tutanos.

Outro, ligeiro como um dromedário,
Que em casa do escrivão e do advogado
É mais certo que ninho em campanário.

Tem a manceba presa; e anda asado
Por lhe solicitar um livramento,
Com ferragoulo sempre sobraçado.

Outro, que com sobejo atrevimento,
Sobre um quartão de Irlanda de sue amo,
Namora umas fidalgas a São Bento,

Na trança do chapéu traz sempre um ramo,
E se o encontra rascão seu matalote,
Lá o sabe avisar pelo reclamo.

Outro, que andra com negros em magote,
Vai-se ao chafariz com uma quartinha,
Com chinelos nos pés e sem pelote;

Anda asado por uma mulatinha,
Que bailar viu outro dia de terreiro,
À porta de uma velha, sia vizinha.

Outro, ancorado em tenda de barbeiro,
Onde as novado mundo se lentajem,
Namora com achaque de soalheiro;

Ali conta da dama, ali praguejam
Os outros dele; e todos igualmente,
Com pragas e remoques se cravejam.

Outro, que veio aqui de Benavente,
E uma suja que viu na mancebia,
Diz que é a mais bela dama do ocidente;

Não lhe sai da porta em todo o dia,
E ganha um par de mulas na jornada,
Com que enfim se aquieta e se resfria.

Mas para que é gastar mais papelada?
Que topar com amor, beza-se dele,
E empregue antes o seu um pinhoada;

Pois ninguém lhe saiu da mão com pele,
Com grande multidão de sentinelas,
Cumpre que cada um dele se vele.

Quanto eu dei em fechar-lhe as janelas!
E juro que se me ele à porta chega,
De lhe atirar com pratos e tigelas!

Enfadei-me de andar à cabra-cega,
Após um não sei quê que a bolsa lava,
Nem sei por que monção se lhe navega.

Sei já como amor pica e como trava,
E por que mais não possa entrar comigo,
Cercado estou de barbacã e cana.

E se ainda assim cair nalgum perigo,
Não dirão que caí por ter aberto,
A pensamentos seus, algum postigo.

E se alguém vos disser que não acerto,
Dizei-lhe que lhe seja eu excremento,
Que sei que em quanto Amor tem descoberto,
Mille piacer’ no vaglion un tormento.


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