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- À Minha Morte
- Ode ao Senhor José D’Herman, em 25 de Dezembro, Dia de Natal
- Ode: Deseja o Peregrino, que Anos Longos
À Minha Morte
Sei, que um dia fatal me espera, e talha
A minha vida o estame:
Nem Prosérpina evita uma só frente.
Sei que vivi: mas quando
Tem de soltar-se, ignoro, o vivo laço;
E se claros, ou turvos
Se hão-de erguer para mim os sóis vindouros. —
Pois, que ao sevo Destino
Me é vedado fugir, fugi ao longe
Roazes Amarguras,
Que estes permeios anos minar vínheis.
Rir quero — e mui folgado,
De vos ver ir correndo, de encolhidas,
Escondendo na fuga,
As caudas dos medonhos ameaços.
Quero, entre mil saúdes,
De vermelha, faustíssima alegria
Ir passando em resenha,
Taça após taça, a lista dos amigos,
E o coro das formosas,
Que a vida me entreteram com agrado.
E reforçado e lesto
C’o néctar da videira, as mãos travando
Co’as engraçadas Musas,
Em dança festival, com pé ligeiro,
Na matizada relva,
Cansar de tanto júbilo o meu sp’rito,
Que se vá (sem que o sinta)
Continuar o baile nos Elísios)
Entre o Garção e Horácio.
De lá, em novas Odes, que mais valham
Que quantas fiz tégora,
(Pois que emendadas pelo douto Mestre)
Darei pasto à mania
De versejar, que me tomou bem tenro,
Que zombou de remédios.
E de lá mandarei guapos modelos,
Onde ávidos alunos
Bebam largas lições; — se achar Correio;
Que deles se encarregue,
E refretando a barca de Caronte,
Cá lhas recove ao Mundo.
Ode ao Senhor José D’Herman, em 25 de Dezembro, Dia de Natal
Hoje, que as boas festas, e as bandejas
Na Elísia, as portas cruzam dos amigos,
E a alugatriz ronceira arrasta à Ajuda
Pontuais pertendentes;
Hoje, que a Devoção, e que o Namoro
Lá da missa do Galo, os olhos fitam
No fresco lombo, no adulado sangue
Do túrgido chouriço…
Daqui fartes, dali caseiros bolos,
Dos açafates de pintada verga,
Desemborcam, rodando atropelados,
Sobre a fumante mesa…
Eis chama o cravo, ao longe retinindo,
As besuntadas bocas cantadoras;
Eis já a Poesia acende em seus Alunos
As fráguas da Lisonja…
Amor a dança inculca, escolhe pares,
E, pelas mãos, que enlaça, manda ao peito
Meigo farpões, que em toda a santa noite
Aguçara na Igreja.
Hoje enfim, que cansados e contetes
Os Peraltas quiseram, que a folhinha
Um Natal cada mês nos desse ao menos,
Guarnecido de outavas;
Que cuidas tu, d’Herman, que faz em França
O insípido Filinto no seu sótão,
Donde abalaram rindo-se, e apupando-o
Os travessos Amores?
Na viúva cama conta pelos dedos
Quantos sóis vão daqui à Primavera,
Quantos soldos chocalham bem folgados
Na despovoada bolsa:
Estende os olhos pelo rumo cego
Do tristonho futuro, e vê na teia
Da escassa vida sua trabalhosa,
Desbotados lavores.
Qual torcida de moça dormihoca,
Em noite bem chuvos de Janeiro,
Morrões sobre morrões vai cumulando,
Té que lampeja, e morre;
A minha Idade, sobrepondo achaques,
Chupa, e seca as relíquias vividouras;
Co’ fado da candeia me amargura
Estes médios instantes.
Embora: ao menos estes, que te escrevo,
Roubados a seus olhos avarentos,
Passarão (seu mau grado) além da cova,
No peito dos amigos.
Ode: Deseja o Peregrino, que Anos Longos
Deseja o Peregrino, que anos longos
Viveu da Pátria ausente,
Tornar a ver o tecto, onde à luz veio,
E o Lar, que o aquecera;
Ver vizinhos, com quem, na idade tenra,
Teceu jogo, e amizade;
O Vergel, que lhe deu sab’rosos frutos
E a pampinosa Cepa,
Que lhe ensombrava o sono meridiano.
Ama, se voltou rico,
Com davidosa mão prendar um e outro,
Com quem brincara Infante;
Contar aos Pais, a Amigos, a Parentes
Da vida estranhos casos;
As fadigas honradas, e os disvelos,
Com que granjeou riqueza.
Se voltou pobre, espera franco alívio
Nos Afagos da Pátria,
No ajudador Conselho, na Brandura
Do Chão, que o viu nascido.
Ai do mísero, que o Fado despiedoso
Travou, pelos cabelos,
Do ninho paternal o arrojou longe
Entre Filautes duros!
Bebida tem já a morte a tragos lentos,
Antes que o talhe a fouce.