Francisco Mendes de Vasconcelos (século XV)



Voltar à página: “Os melhores poemas da língua portuguesa”



Meu Senhor, Vós Desejais

DE FRANCISCO MENDES DE VASCONCELOS, INDO­ SE METER FRADE, A ? SEU AMIGO QUE LHE MANDOU PREGUNTAR ONDE IA.

Meu senhor, vós desejais
minha partida saber,
peço­vos que nam sintais
a perda de me perder.
Que onde quer que m’ achar
e estiver,
servir­vos­ei de folgar
no que poder.

De ser vosso obrigado
sam certo que o sabeis,
porque culpa me nam deis
respondo oo preguntado,
o qual sempre quis calar,
porque sabia
haver­vos pena de dar
a que sentia.

Trazer isto tam calado
me convinha pera ser,
a ninguem nam no dizer
me forçava seu cuidado,
do que culpa me nam deis,
que, se olhardes,
vereis craro que errareis
em ma dardes.

Que se laa tal vos dissera,
o pesar­vos m’ estorvara,
sem quererdes nam fizera
aquilo que desejara.
E dest’ arte nam vos vendo,
nam dareis
a mim pena da que entendo
que tereis.

Por menos males sentir
de vos ver fogi partindo,
per outr’ arte tal partir
sem ver­vos fui mais sentindo.
Mata­me a saudade
que tereis,
a que levo na vontade
ja sabeis.

Na dor que levo conheço
a que vós por mim tereis
e nela, senhor, mereço
a que mais padecereis.
E por de mim vos vingar,
quero dizer
a vida que vou buscar
pera viver:

Pardo habito, cordam
do meu nome nomeado,
com manto da condiçam
da minha bem desviado.
Com alforge e cajado
mendigando,
a mim mesmo do passado
castigando.

Escolhi aquesta cor
pola meu coraçam ter,
o qual de cheo de dor
em trabalho quer morrer.
Nunca pude al fazer
pola razam
e a quem mal parecer
peço perdam.

Aqueste triste vestido
e maneira de viver,
por ter menos que perder,
escolhi ja de perdido.
E nele sem mais querer
vivirei,
a vida que hei­de ter
nomearei:

Vivirei de sentimento
de quem mal tenho vevido,
terei vida com tormento,
que bem tenho merecido.
E serei arrependido
do passado,
o qual tenho conhecido
ser errado.

Vivirei de saudade
sem dizer de que seraa,
vivirei sem liberdade,
que mais livre me faraa.
A mim outrem mandaraa
e eu farei?
se errar, castigaraa
e sofrerei.

Vivirei ledo, contente,
nos tormentos desta vida,
minha dor nam conhecida
outras moores me consente.
Toda cousa qu’ atormente
buscarei,
de sofrer sempre doente
andarei.

Meu descanso haa­de ser
cansar em outros servir,
quanto moor pena sentir
mais ledo m’ hei­de fazer.
Seraa todo meu prazer
ser desprezado,
de ninguem nam me querer
mui consolado.

Terei meu contentamento
mui firme neste desejo,
das cousas em que me vejo
terei bom conhecimento.
Por ter mais merecimento,
haverei
por descanso o tormento,
que terei.

Nestas cousas meu viver
seraa sem o desejar
e seraa meu descansar
esperança de morrer.
Triste vida hei­de ter
dessimulada,
de ninguem a conhecer,
magoada.

Os custumes mudarei,
a condiçam ficaraa,
com ela consolarei
a dor que al me faraa.
Meu viver contentaraa
os qu’ entenderem,
dos outros nam me daraa
maldizerem.

Nam hei muito de curar
de falar encapuchado,
ha­me bem pouco de dar
ser de pecos mal julgado.
Deos me mate avisado
que é lei
de que nunca condenado
vevirei.

As cousas como merecem
ham­de ser de mim tratadas,
as pessoas avisadas
no pouco tudo conhecem.
Nam sam frade pera ser
santeficado
nem por dos outros me ver
ser adorado.

Meu desejo é salvar
minha’ alma mui simprezmente,
disto soo serei contente
que Deos pode ordenar.
Nam m’ hei muito de matar
por me terem
por santo nem por causar
de o dizerem.

Em ter pena minha groria
soo terei que a mereço
e leixar viva memoria
desta morte que padeço.
Dessa culpa me conheço
mui errada,
ser daqui me ofereço
castigada.

Vivendo desta maneira
serei alem de contente,
porque sei como se sente
tudo o al aa derradeira.
E, enfim, pois a morrer
somos forçados,
pera qu’ ee, senhor,
sofrer tantos cuidados?

Enquanto sempre vivemos
por prazeres alcançar,
ooh quantos males sofremos
quando nos soe a leixar!
E pois vemos o prazer
quam pouco dura,
pera que querem merecer
maior tristura?

Deste mal bem conhecer
hei por bem o qu’ escolhi
e se nam o conheci
assi quero cá viver.
E laa viva quem quiser
em favores,
laa guarde quem os tiver
suas dores.

Laa gostai vossos serãos,
laa guardai vossos amores,
que bem sei como sam vãos
seu favor e desfavores.
E ja sei quam pouco dura
seu prazer
e senti quanta tristura
soem fazer.

Lá guardai vir enfadados
d’ aguardar a quem servis,
laa guardai ser namorados,
pois tantos males sentis.
E trabalhai por andardes
com as damas,
laa vos honrai de danardes
suas famas.

Laa guardai mui bem El­Rei,
laa trabalhai por viver
que em fim tudo bem sei
que vos haa­d’ avorrecer.
Mas tal é nossa ventura
que consente
que vida de tal tristura
nos contente.

Laa guardai vossa riqueza,
laa trabalhai pola ter,
que eu rico na proveza
por outr’ arte hei mais de ser.
Laa trabalhai por leixar,
quando morrerdes,
a quem houver de lograr
o que tiverdes.

E fazei como fizeram
alg?s que vistes morrer,
que quanto mor renda houveram
mais morriam por haver.
Nam contentes da que tinham.
mas cansando,
e mil trabalhos sostinham
desejando.

Ooh quanto fora milhor
nam terem caa que leixar
e acharam mais favor
na conta que ham­de dar,
de como foram gastadas,
se fizeram
obras bem­aventuradas,
pois tiveram!

Vede bem a brevidade
da vida em que vivemos
e vede a vaidade
do prazer que nela temos.
Olhai bem quam pouco dura
nela bem
e vede quanta tristura
sempre tem.

Lembre­vos que nam sabeis
o que tendes de viver
e que pode mui bem ser
que mui cedo morrereis.
E por isso trabalhai
por corregerdes
vossa vida, que se vai
sem lhe valerdes.

O que cada dia vemos
nos devia d’ ensinar
e de quanto mal fazemos
nos devia cavidar.
Mas por prazeres seguir
mundanais,
queremos penas sentir
desiguais.

Asseelo por concrusam
do que disse e direi
que sam frade e serei
pera sempre com rezam.
Nam fiz isto de paixam
nem vaidade,
mas de limpa devaçam
e vontade.

Fim.

Sejam como forem lidas
por me mais mercê fazer
com quantas tendes rompidas
que laa nam pude romper.
Porque culpa me nam dê
a que entendo,
senhor, em vossa mercê
m’ encomendo.


Voltar à página: “Os melhores poemas da língua portuguesa”