Guerra Junqueiro (1850-1923)




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Morena

Não negues, confessa
Que tens certa pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena.

Pois eu não gostava,
Parece-me a mim,
De ver o teu rosto
Da cor do jasmim.

Eu não… mas enfim
É fraca a razão,
Pois pouco te importa
Que eu goste ou que não.

Mas olha as violetas
Que, sendo umas pretas,
O cheiro que têm!
Vê lá que seria,
Se Deus as fizesse
Morenas também!

Tu és a mais rara
De todas as rosas;
E as coisas mais raras
São mais preciosas.

Há rosas dobradas
E há-as singelas;
Mas são todas elas
Azuis, amarelas,
De cor de açucenas,
De muita outra cor;
Mas rosas morenas,
Só tu, linda flor.

E olha que foram
Morenas e bem
As moças mais lindas
De Jerusalém.
E a Virgem Maria
Não sei… mas seria
Morena também.

Moreno era Cristo.
Vê lá depois disto
Se ainda tens pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena!

Fome no Ceará

Lançai o olhar em torno; 
Arde a terra abrasada 
Debaixo da candente abóbada dum forno. 
Já não chora sobre ela orvalho a madrugada; 
Secaram-se de todo as lágrimas das fontes; 
E na fulva aridez aspérrima dos montes, 
Entre as cintilações narcóticas da luz, 
          As árvores antigas 
Levantam para o ar – atléticas mendigas, 
Fantasmas espectrais, os grandes braços nus. 

Na deserta amplidão dos campos luminosos 
Mugem sinistramente os grandes bois sequiosos. 
As aves caem já, sem se suster nas asas. 
E, exaurindo-lhe a força enorme que ela encerra, 
            O Sol aplica à Terra 
            Um cáustico de brasas. 

O incêndio destruidor a galopar com fúria, 
Como um Átila, arrasta a túnica purpúrea 
            Nos bosques seculares; 
E, Lacoontes senis, os troncos viridentes 
Torcem-se, crepitando entre as rubras serpentes 
Com as caudas de fogo em convulsões nos ares. 

O Sol bebeu dum trago as límpidas correntes; 
E os seus leitos sem água e sem ervagens frescas, 
            Co’as bordas solitárias, 
Têm o aspecto cruel de valas gigantescas 
Onde podem caber muitos milhões de párias. 
E entre todo este horror existe um povo exangue,  
          Filho do nosso sangue, 
          Um povo nosso irmão, 
Que nas ânsias da fome, em contorções hediondas, 
Nos estende através das súplicas das ondas 
Com o último grito a descarnada mão. 

E por sobre esta imensa, atroz calamidade, 
Sobre a fome, o extermínio, a viuvez, a orfandade, 
Sobre os filhos sem mãe e os berços sem amor, 
Pairam sinistramente em bandos agoireiros 
Os abutres, que são as covas e os coveiros 
Dos que nem terra têm para dormir, Senhor!

E sabei – monstruoso, horrível pesadelo! – 
Sabei que aí – meu Deus, confranjo-me ao dizê-lo! – 
Vêem-se os mortos nus lambidos pelos cães, 
E os abutres cruéis com as garras de lanças, 
Rasgando, devorando os corpos das crianças 
          Nas entranhas das mães! 

II 
Quando inda há pouco o vendaval batia 
Dos grandes montes nos robustos flancos; 
E as nuvens, como enormes ursos brancos, 
Em tropel pela abóbada sombria 
Dos canhões dos titãs, aos solavancos, 
 Arrastavam a rouca artilharia; 

Quando os rios, indômitos, escuros, 
Iam como ladrões saltando os muros, 
Para roubar ao camponês o pão; 
E, cruzando-se, os raios flamejantes 
Abriam como esplêndidas montanhas 
De meio a meio a funda escuridão; 
Quando os ventos aspérrimos, frenéticos 
Como ciclopes doidos, epilépticos, 
            Com raivas convulsivas 
Perseguiam, bramindo, às chicotadas, 
Das retumbantes ondas explosivas 
            As trôpegas manadas; 

Quando entre os gritos roucos da procela, 
A fome – a loba – escancarava a goela 
            Uivando às nossas portas; 
E andavam sobre as águas desumanas 
Com os despojos tristes das choupanas 
Berços vazios de crianças mortas; 

Oh! nesse instante, ao ver o povo exânime, 
Pulsou da pátria o coração unânime, 
Um coração de mãe piedosa e boa… 
E das imensas lágrimas choradas 
Muitíssimas então foram guardadas 
Entre as jóias da c’roa. 
Mas é certo também que além dos mares 
Alguém ouviu, alguém, cortando os ares 
            Essa terrível dor; 
E esse alguém é quem hoje, é quem agora 
Morto de fome a soluçar implora 
Mais do que o nosso auxílio – o nosso amor. 
Vamos! Abri os corações, abri-os! 
Transborde a caridade como os rios 
Transbordaram dos leitos em Janeiro! 
Nem pode haver decerto mão avara, 
Que a esmola negue a quem lh’a deu primeiro. 

A miséria é um horrível sorvedoiro; 
Vamos! enchei-o com punhados d’oiro, 
Mostrando assim aos olhos das nações 
Que é impossível já hoje (isto consola) 
Morrer de fome alguém, pedindo esmola 
Na mesma língua em que a pediu Camões!

Regresso ao Lar

Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!…
Foi há vinte?…há trinta? Nem eu sei já quando!…
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para eu me lembrar!…

Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida…
Só achei enganos, decepções, pesar…
Oh! a ingénua alma tão desiludida!…
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!…

Trago damargura o coração desfeito…
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!…
Minha velha ama que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!…

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
Pedrarias dastros, gemas de luar…
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!…
Minha velha ama, sou um pobrezinho…
Canta-me cantigas de fazer chorar!

Como antigamente, no regaço amado,
(Venho morto, morto!…) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!…

Cante-me cantigas, manso, muito manso…
Tristes, muito tristes, como à noite o mar…
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minhalma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!…

A Lágrima

Manhã de Junho ardente. Uma encosta escavada,
Sêca, deserta e nua, à beira d’uma estrada.

Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha, 
Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha. 

Sôbre uma folha hostil duma figueira brava, 
Mendiga que se nutre a pedregulho e lava, 

A aurora desprendeu, compassiva e divina, 
Uma lágrima etérea, enorme e cristalina. 

Lágrima tão ideal, tão límpida, que ao vê-la, 
De perto era um diamante e de longe uma estrêla. 

Passa um rei com o seu cortejo de espavento, 
Elmos, lanças, clarins, trinta pendões ao vento. 

– “No meu diadema, disse o rei, quedando a olhar, 
Há safiras sem conta e brilhantes sem par,  

“Há rubins orientais, sangrentos e doirados, 
Como beijos d’amor, a arder, cristalizados. 

“Há pérolas que são gotas de mágua imensa, 
Que a lua chora e verte, e o mar gela e condensa. 

“Pois, brilhantes, rubins e pérolas de Ofir, 
Tudo isso eu dou, e vem, ó lágrima, fulgir 

“Nesta c’roa orgulhosa, olímpica, suprema, 
Vendo o Globo a teus pés do alto do teu diadema!” 

E a lágrima deleste, ingénua e luminosa, 
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa. ***

Couraçado de ferro, épico e deslumbrante, 
Passa no seu ginete um cavaleiro andante. 

E o cavaleiro diz à lágrima irisada: 
“Vem brilhar, por Jesus, na cruz da minha espada! 

“Far-te hei relampejar, de vitória em vitória, 
Na Terra Santa, à luz da Fé, ao sol da Glória! 

“E à volta há-de guardar-te a minha noiva, ó astro, 
Em seu colo auroreal de rosa e de alabastro. 

“E assim alumiarás com teu vivo esplendor 
Mil combates de heróis e mil sonhos d’amor!” 

E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,  
Ouviu, sorriu, tremeu e quedou silenciosa. 

Montado numa mula escura, de caminho, 
Passa um velho judeu, avarento e mesquinho. 

Mulas de carga atrás levavam-lhe o tesoiro: 
Grandes arcas de cedro, abarrotadas d’oiro. 

E o velhinho andrajoso e magro como um junco, 
O crânio calvo, o olhar febril, o bico adunco, 

Vendo a estrêla, exclamou: “Oh Deus, que maravilha! 
Como ela resplandece, e tremeluz, e brilha! 

“Com meu oiro em montão podiam-se comprar 
Os impérios dos reis e os navios do mar, 

“E por esse diamante esplêndido trocara 
Todo o meu oiro imenso a minha mão avara!” 

E a lágrima celeste, ingénua e luminosa, 
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa. ***

Debaixo da figueira, então, um cardo agreste, 
Já ressequido, disse à lágrima celeste: 

“A terra onde o lilaz e a balsamina medra 
Para mim teve sempre um coração de pedra. 

“Se a queixar-me, ergo ao céu os braços por acaso, 
O céu manda-me em paga o fogo em que me abraso. 

“Nunca junto de mim, ulcerado de espinhos, 
Ouvi trinar, gorgear a música dos ninhos. 

“Nunca junto de mim ranchos de namoradas 
Debandaram, cantando, em noites estreladas… 

“Voa a ave no azul e passa longe o amor, 
Porque ai! Nunca dei sombra e nunca tive flor!… 

“Ó lágrima de Deus, ó astro, ó gota d’água, 
Cai na desolação desta infinita mágoa!” 

E a lágrima celeste, ingénua e luminosa, 
Tremeu, tremeu, tremeu… e caíu silenciosa!… 

E algum tempo depois o triste cardo exangue, 
Reverdecendo, dava uma flor côr de sangue, 

Dum roxo macerado, e dorido, e desfeito, 
Como as chagas que tem Nosso Senhor no peito… 

E ao cálix virginal da pobre flor vermelha 
Ia buscar, zumbindo, o mel doirado a abelha!…

Ruínas

I
E é triste ver assim ir desfolhando,
Vê-las levadas na amplidão do ar,
As ilusões que andámos levantando
Sobre o peito das mães, o eterno altar.

Nem sabe a gente já como, nem quando,
Há-de a nossa alma um dia descansar!
Que as almas vão perdidas, vão boiando
Nesta corrente eléctrica do mar!…

Ó ciência, minha amante, ó sonho belo!
És fria como a folha dum cutelo…
Nunca o teu lábio conheceu piedade!

Mas caia embora o velho paraíso,
Caia a fé, caia Deus! sendo preciso,
Em nome do Direito e da Verdade.


II
Morreu-me a luz da crença — alva cecém,
Pálida virgem de luzentas tranças
Dorme agora na campa das crianças,
Onde eu quisera repousar também.

A graça, as ilusões, o amor, a unção,
Doiradas catedrais do meu passado,
Tudo caiu desfeito, escalavrado
Nos tremendos combates da razão.   

Perdida a fé, esse imortal abrigo,
Fiquei sozinho como herói antigo
Batalhando sem elmo e sem escudo.

A implacável, a rígida ciência
Deixou-me unicamente a Providência,
Mas, deixando-me Deus, deixou-me tudo.

A Benção da Locomotiva

A obra está completa. A máquina flameja,
Desenrolando o fumo em ondas pelo ar.
Mas, antes de partir mandem chamar a Igreja,
Que é preciso que um bispo a venha baptizar.

Como ela é concerteza o fruto de Caím,
A filha da razão, da independência humana,
Botem-lhe na fornalha uns trechos em latim,
E convertam-na à fé Católica Romana.

Devem nela existir diabólicos pecados,
Porque é feita de cobre e ferro; e estes metais
Saem da natureza, ímpios, excomungados,
Como saímos nós dos ventres maternais!

Vamos, esconjurai-lhes o demo que ela encerra,
Extraí a heresia ao aço lampejante!
Ela acaba de vir das forjas d’Inglaterra,
E há-de ser com certeza um pouco protestante.

Para que o monstro corra em férvido galope,
Como um sonho febril, num doido turbilhão,
Além do maquinista é necessário o hissope,
E muita teologia… além de algum carvão.

Atirem-lhe uma hóstia à boca fumarenta,
Preguem-lhe alguns sermões, ensinem-lhe a rezar,
E lancem na caldeira um jorro d’água benta,
Que com água do céu talvez não possa andar.



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