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Único Poema de Amor
tudo tão calmo
a vida dormindo
como agora que tombasse sem murmúrio
na planície do meu pensamento …
folhas mortas que não voam,
pássaros imóveis que não cantam,
água parada que não corre …
e teu corpo como um lírio sobre a terra,
e a terra muda impregnada de perfume,
teus olhos grandes como flores noturnas,
flores que se abrem na doçura do silêncio
e minha sombra como uma nuvem perdida
debruçada sobre teus cabelos imóveis
que bóiam na água da planície…
Poema do Ferro e do Sangue
Esqueceram os campos revolvidos
onde vegetam perdidos
os ossos obscuros
calcinados
de dez milhões de mortos.
Esqueceram as cruzes improvisadas
erguendo para o alto
preces de galhos retorcidos.
E esqueceram o rumor das granadas
revolvendo a terra e os vivos
devorando os mortos
destruindo.
Quando na Escuridão o Teu Riso Retinia
Quando na escuridão o teu riso retinia,
eu chamava baixinho: Egito …
E ela desnudava a espádua onde estava gravada
como marca de fogo, a rosa do amor.
Egito! O ar palpitava como se um pássaro voasse
e eu fechava os olhos – tão grande era a paixão que me queimava.
Às vezes, quando a noite nos envolvia na sua ânsia mortal,
sentia o seu coração bater – e dizia comigo que ela era humana
e sua alma estava aprisionada à minha.
Mas nós ainda jazíamos por trás das grandes muralhas.
As flores faziam-na fremir como dedos vorazes,
as cantigas dos rios deixavam-na febril,
o grito dos chacais causava-lhe desmaios.
Egito! Ó Egito, por que me abandonaste,
por que envenenaste o ar que eu respirava?
Junto de ti as violetas fenecem, o mel se torna ácido,
junto de ti o meu amor não é senão castigo e tormento.
Ah, de que terrível noite nasceste, ó desejo,
de que fonte de amargura, ó luz crepuscular!
Egito! Mistério do céu infinito
desdobrado sobre mim como negro sudário —
que força me revelará o teu verdadeiro nome,
Esmeralda, Safira, constelação de astros efêmeros e malditos!