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Vaidade das Vaidades
Vaidade das vaidades,
e tudo é vaidade:
assi passam as vontades
como as cousas da vontade.
Tudo se já desejou,
e tudo s’avorreceu,
e tudo se já ganhou,
e tudo se já perdeu.
E o homem que mais tem
do trabalho a que se dá?
A geração vai e vem,
a terra sempr’assi está.
As cousas naquesta vida
todas s’entragam por conto,
que se cá dê mor medida,
tudo lá tem seu desconto.
Não pode ninguém dizer
que há i já cousa nova:
o que foi, isso há-de ser,
disto temos certa prova.
Quem carece do passado
julga pelo acidente,
mas cotados, e coitado
d’a quem é tudo presente.
Que não lembrem os primeiros
senão quase por história,
tão pouco terão memória
de nós os mais derradeiros.
O tempo vai por compasso
dias, horas e momentos,
liberal d’esquecimentos,
De memórias mui escasso.
Eu fui rei em Jerusalém,
precedi os d’ante mim,
tive bens, quis grande bem,
e enfim tudo houve fim.
Fiz os meus olhos contentes,
e vi o tempo senhor,
vi lágrimas de inocentes,
e não vi consolador.
Tive mil deleitações,
riquezas e bens mundanos,
em tudo achei enganos,
dores e tribulações.
Com trabalho os ajuntais,
com cuidado os possuis,
quando os tendes, não dormis
ou vos deix’ ou os deixais.
Cuidei no meu coração,
onde tudo ia ter.
Então disse ao prazer:
“Por que t’enganas em vão?”
Por erro julguei o riso
dentro na minha vontade:
assim vi passar o siso
como à grande vaidade.
O sisudo e o sandeu,
tudo vi que tinha fim,
e disse então antre mim:
“Que me presta o saber meu?”
Inorantes e prudentes,
todos tem ua medida:
na morte nem nesta vida
não nos vejo diferentes.
Assi que neste presente
bons nem maus não se conhecem,
e a todos igualmente
bens e males acontecem.
Daqui nascem confusões,
nascem descontentamentos,
perdem-s’as opinões,
abaixam-s’ps pensamentos.
O justo, o sabedor,
e o mais cheio de fé,
nenhum não sabe se é
dino d’ódio, se d’amor.
Quantos isto faz perder,
porqu’a quem a fé não dura
encomenda-s’á ventura,
e deixa de merecer.
As cousas seu tempo tem,
e por seus espaços vão:
tempo de mal e de bem,
tempo de sim, e de não.
Tempo há de semear,
e tempo há de colher,
e tempo d’obedecer,
e tempo para mandar.
Nem vi fortes, vencedores,
nem vi justos, beandantes,
nem ricos os sabedores,
nem proves os inorantes.
Não há i merecimentos
nem menos boa razão:
tempos, acontecimentos
há nas cousas, e mais não.
Vi os ruins soterrados,
e o que deles diziam,
e vi-os, quando viviam,
por santos ser adorados.
E vi levar à mentira
os galardões da verdade,
e o que se daqui tira:
é que tudo é vaidade.
Vi trabalhos sem dar fruito,
vi que ninguém não repousa,
vi fazer pouco por muito,
e muito por pouca cousa.
Ociosos, acupados,
vi perder dias e anos,
vi enganos d’enganados
que doe’mais que desenganos.
Vi os proves sem amigos,
vi os ricos sem contrairos,
vi em tudo mil perigos,
mil mudanças, mil desvairos.
Vi òs cuidados sobejos
falecer-lhes seu cuidado,
e vi òs grandes desejos
falecer-lh’o desejado.
Vi os muito cobiçosos
ter mui largos despenseiros,
e vi néscios ociosos
ficarem por seus herdeiros.
Dá a Fortuna estes meios
òs menos merecedores,
e dos trabalhos alheios
os faz o tempo senhores.
Vi o mundo ser sujeito
de senhores mui sujeitos,
e vi estar o Direito
em modos e em respeitos.
Vi tudo sem liberdade
metido em sujeição,
vi os libres sem vontade
feitos d’outra condição.
CABO
E não vi nenhum estado
que não fosse descontente:
uns choram pelo passado,
e outros pelo presente;
uns por terem seus cuidado,
outros porque os perderam.
Assi qu’os que não nasceram
são os bem aventurados.