Voltar à página: “Os melhores poemas da língua portuguesa”
- Tudo Acaba
- Já Sobre o Coche de Ébano Estrelado
- Temo que a Minha Ausência e Desventura
- Glosando o Mote “Nada se Pode Comparar Contigo”
- O Céu, de Opacas Sombras Abafado
Tudo Acaba
Tudo acaba. Esse Monstro carrancudo,
Prole do Averno, efeito do pecado,
Tudo a cinza reduz, brandindo irado
Com sanguinosas mãos o ferro agudo.
Oh fatal desengano, horrendo e mudo
Em pavorosos mármores gravado!
Oh letreiros da Morte! Oh lei do Fado!
É verdade, é verdade: acaba tudo.
Eis o nosso misérrimo destino:
Assim ordena quem nos Céus impera:
Basta, adoremos o poder divino.
Reprime os passos, caminhante, espera,
E no epitáfio do infeliz Josino
Lê o teu nada, o que tu és pondera.
Já Sobre o Coche de Ébano Estrelado
Já sobre o coche de ébano estrelado,
Deu meio giro a Noite escura e feia,
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!
Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas acostumado.
Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio com que está mih’alma presa
À vil matéria lânguida, me corte.
Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.
Temo que a Minha Ausência e Desventura
Temo que a minha ausência e desventura
Vão na tua alma, docemente acesa,
Apoucando os excessos da firmeza,
Rebatendo os assaltos da ternura.
Temo que a tua singular candura
Leve o Tempo, fugaz, nas asas presa,
Que é quase sempre o vício da beleza
Génio mudável, condição perjura.
Temo; e se o mau fado, fado inimigo,
Confirmar impiamente este receio.
Espectro perseguidor que anda comigo,
Com rosto alguma vez de mágoa cheio,
recorda-te de mim, dize contigo:
«Era fiel, amava-me e deixei-o»
Glosando o Mote “Nada se Pode Comparar Contigo”
O ledo passarinho, que gorjeia
D´alma exprimindo a cândida ternura;
O rio transparente, que murmura,
E por entre pedrinhas serpenteia;
O Sol, que o céu diáfano passeia,
A Lua, que lhe deve a formosura,
O sorriso da Aurora alegre, e pura,
A rosa, que entre os Zéfiros ondeia;
A serena, amorosa Primavera,
O doce autor das glórias que consigo,
A Deusa das paixões, e de Citera;
Quando digo, meu bem, quanto não digo,
Tudo em tua presença degenera,
Nada se pode comparar contigo.
O Céu, de Opacas Sombras Abafado
O céu, de opacas sombras abafado,
Tornando mais medonha a noite fea,
Mugindo sobre as rochas, que saltea,
O mar, em crespos montes levantado;
Desfeito em furacões o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta area;
O pássaro nocturno, que vozea
No agoireiro cipreste além pousado;
Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito.
Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza.