Voltar à página: “Os melhores poemas da língua portuguesa”
- Aqui Sobre Esta Penha, que Defronte
- Já Corre Viração, o Sol Declina
- Às Vezes Se Não Durmo, o Pensamento
Aqui Sobre Esta Penha, que Defronte
Aqui sobre esta penha, que defronte
Me fica do Marão, sentar-me intento,
Para lançar ao mundo o pensamento
Antes que o Sol se meta no Horizonte.
Acolá vejo ao pé daquele monte
De uma pobre corrente o nascimento,
Que apenas deve á chuva um breve aumento
Já quer ser rio, e deixa de ser fonte.
Já tal estrondo faz, e tal balborda,
Que tudo atroa; e assim que o vale ganha
Logo se espalha, e toda se tresborda.
Enxada, submergir quer a campanha,
Soberba quer ser mar; e não se acorda
Que a mijou ainda há pouco uma montanha.
Já Corre Viração, o Sol Declina
Já corre viração, o Sol declina;
E da mosca importuna livre o gado,
Deixa o curral, e vai pastar no prado
Ao som da frauta, que Silvandro afina.
Acolá vem Daménia, ela imagina,
Que ninguém lhe percebe o seu cuidado;
Olhem a pobre, vejam o coitado,
Como mostram a dor que os amofina!
Eu também, como os outros amadores,
Um tempo dos grilhões fiz louco alarde,
Por isso tenho dó dos mais Pastores.
Mas já, graças ao Céu, menos cobarde
Zombo de Amor, e em vez dos seus favores,
Guardo os meus Bois, enquanto dura a tarde.
Às Vezes Se Não Durmo, o Pensamento
Às vezes se não durmo, o pensamento
Deixando o corpo sobre :a cama quente,
Me leva mais ousado, que prudente,
Dos Astros a medir o movimento.
Peso, calculo, meço, e observo atento,
Quantos globos encerra o Céu luzente:
Contemplo os Turbilhões, e finalmente
Me transporto até sobre o Firmamento.
Descartes lá descubro: e nesse espaço,
Que existência só tem na fantasia,
Também meus Orbes risco, e Mundos faço.
E eis que vem com mais certa Geometria
Uma Pulga, e me morde no cachaço;
Vou-me arranhar; e adeus Filosofia.