Paulo Teixeira (1962-)



Voltar à página: “Os melhores poemas da língua portuguesa”







Discurso de Platão a Alépsis

Tenho o rosto visitado pelo sono e a alma em febre.
E queda-se a tua beleza nos cairéis da pátria
em silêncio. Entras na sala, ébrio e cansado,
como outrora Alcibíades na casa de Agatão.
Tocas o deserto na minha boca e, ombro contra
ombro, esses precipícios vagamente sonhados
do coração. Por ele sobes, entre o alarido
dos comensais, a conhecer o céu azul.

Toda a tarde a brisa elevou no ar as folhas
dos salgueiros, a sombra que cobriu a tua nudez
e esses sonhos que começaram a desunir-se,
como dedos extenuados, no teu dorso. Abrem-me agora
os teus gestos buracos na retina quando o crepúsculo
arrasta ao longe a luz dos horizontes, impedindo-me
de te ouvir, impedindo-me de te fazer falar.

Não queres dizer como esse corpo que na perfeição
me seduz só esperou receber de mim a definição
do homem virtuoso. Tu, que esqueces quantas vezes
o desejo do homem velho não é o de ascender
pelo amor de um belo rapaz à imortalidade efémera,
esqueces que os deuses são altos
mas a perfeição também é terrena.


Os Amantes de Pompeia

Eles conheceram-se neste abraço
em que levam tanto tempo,
embalados na cadência,

de uma canção desconhecida
e no mover das mãos que hesitam
entre o animal e a planta.

O tempo privou-os de vida
mas não um do outro, tangíveis
nos membros onde o desejo

lateja ainda,
gestos como medusas esvaindo-se
no sangue em que se fundiram para sempre.

Geraram esta outra placenta
com a urgência de quem sabe
que bebe em cada trago despedida:

lenta colheita da alma
que palidamente assoma
em cada poro,

subtil, alada, como pluma
que sem ser vista
se solta.

Neste abraço que os reteve até à sufocação,
depois que se abateram o céu e o horizonte,
o mundo foi-lhes langor

e memória acesa;
petrificados, mortos,
estão diante do nosso olhar,

na posição aflita em que os une,
mais que o esterno e a pelve,
o duplo receio da imortalidade.

Agosto Azul

A Grécia podia ser aqui, entre escarpas
que os seus pés sulcaram de degraus
e o compasso marcado pelas ondas no ouvido.
A terra eleva-se dessa costa submersa
para esta fronteira indolor em que vivem,
escoltados por velas que navegam junto
à praia, numa estação celebrada e eterna.

Corpos cunhados na depressão de uma onda
que emergem, na sua franja de espuma,
para a hora vaga de quem os vê, rapazes
com os olhos da palidez do céu, deitarem,
um do outro, a cabeça no peito de armas.

Têm por língua um fraseado antigo
e por senha este costume licencioso.
O grito das gaivotas vai-lhes adormecendo
na areia o desejo e a memória de tudo
sob a luz de um sol que sempre esteve aqui.



Voltar à página: “Os melhores poemas da língua portuguesa”