Voltar à página: “Os melhores poemas da língua portuguesa”
- Feita Nos Grandes Campos de Roma
- O Sol é Grande
- Desarrezoado Amor, Dentro em Meu Peito
- Aquela Fé tão Clara e Verdadeira
- À Morte de Sua Mulher
- Canção a Nossa Senhora
- Epitáfio
Feita Nos Grandes Campos de Roma
Por estes campos sem fim
Onde a vista assi se estende
Que verei triste de mim
Pois ver-vos se me defende?
Todos estes campos cheos
São de saudade e pesar
Que vem pera me matar
Debaixo de Céus alheos,
Em terra estranha, e em ar
Mal sem meo, e mal sem fim
Dor que ninguém não entende,
Até quam longe se estende
O vosso poder em mim.
O Sol é Grande
O sol é grande, caem co’a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d’alto cai acordar-m’-ia
do sono não, mas de cuidados graves.
Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu’em vós confia?
Passam os tempos vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.
Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d’amores.
Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m’eu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!
Desarrezoado Amor, Dentro em Meu Peito
Desarrezoado amor, dentro em meu peito,
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.
Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força; faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.
Doutra parte, a Razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; enfim vem o seu dia:
Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata traições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?
Aquela Fé tão Clara e Verdadeira
Aquela fé tão clara e verdadeira,
A vontade tão limpa e tão sem mágoa,
Tantas vezes provada em viva frágua
De fogo, i apurada, e sempre inteira;
Aquela confiança, de maneira
Que encheu de fogo o peito, os olhos de água,
Por que eu ledo passei por tanta mágoa,
Culpa primeira minha e derradeira,
De que me aproveitou? Não de al por certo
Que dum só nome tão leve e tão vão,
Custoso ao rosto, tão custoso à vida.
Dei de mim que falar ao longe e ao perto;
E já assi se consola a alma perdida,
Se não achar piedade, ache perdão.
À Morte de Sua Mulher
Aquele esprito, já tão bem pagado,
como ele merecia, claro e puro,
deixou de boa vontade o vale escuro,
de tudo o que cà viu como anojado.
Aquele esprito que, do mar irado
desta vida mortal posto em seguro,
da glória que lá tem de herdade e juro
cá nos deixou o caminho abalisado.
Alma aqui vinda nesta nossa idade
de ferro, que tomaste à antiga de ouro
enquanto cá regeste a humanidade,
Em chegando, ajuntaste tal tesouro
que para sempre dura! Ah vaidade:
ricas areias deste Tejo e Douro!
Canção a Nossa Senhora
Virgem fermosa, que achaste a graça
perdida antes por Eva, onde não chega
o fraco entendimento chegue a fé.
Coitada desta nossa vista cega,
que anda apalpando pela névoa baça,
e busca o que ante si tendo não vê.
Sem saber atinar como, ou porquê,
entrei pelos perigos,
rodeado de imigos;
por piedade a vós venho, e po mercê;
vós, que nos destes claro a tanto escuro,
remédio a tanta míngua,
me dareis língua e coracão seguro.
Virgem toda sem mágoa, inteira e pura,
sem sombra nem daquela culpa, herdada
por todos nós, té o fim desde o começo
claridade do Sol nunca turbada,
Santíssima e perfeita criatura,
ante quem de mim fujo e me aborreço:
He medo a quanto fiz, sei que mereço,
dos meus erros me espanto,
que me aprouveram tanto,
agora à só lembrança desfaleço;
mas lembra-me porém que vos fizestes
paz entre Deus e nós,
e a quem por vós chamou, sempre a mão destes.
Virgem, seguro porto, amparo e abrigo
às mores tempestades, ah! que tinha
aos ventos esta vida encomendada,
sem olhar já a que parte ia ou vinha
descuidado de mim e do perigo,
surdo aos conselhos, tudo tendo em nada!
Não vos seja em desprezo esta coitada
alma, que ante vós vem
co’ os receios que tem,
de imigos grandes mal ameaçada;
e que eu tam pecador e errado seja,
vença vossa bondade
minha maldade grande, e assi sobjea.
Virgem, do mar estrela, e neste lago
e nesta noite um faro, que nos guia
pera o porto, antes claro e certo Norte:
quem sem vos atinar, quem poderia
abrir somente os olhos, vendo o estrago
que atrás olhando deixa feito a Morte?
Quem me daria proa com que corte
por tam brava tormenta?
De toda a parte venta,
de toda espanta o tempo feio e forte.
Mas tudo que será? co’ a vossa ajuda
névoa da lagoa
que ao vento voa, e num momento a muda!
Virgem perfeita, e do Sacrário santo
porta que Ezequiel cerrada via,
à parte que responde ò Oriente;
alto silvado, que todo ele adria
sem ofendido ser tanto nem quanto,
e foi tal testemunha ali presente;
velo de Gedeão, divinamente,
e divino sinal
do orvalho celestial,
que, tudo o mais enxuto, ele só sente:
Senhora, que podeis, em tal afronta
restituí-me a mim,
antes do fim, que o sal vai-se e transmonta.
Virgem e madre juntamente: quem
tal nunca ouviu? nem dantes ne depois,
somente em vós então quem o entendeu?
Vós madre e filha, vós esposa sois
daquele que apertado ao peito tem
vossos braços–o que não pode o Céu!
Na vossa alta humildade se venceu
o soberbo tirano,
que com enveja e engano
nos fez tam perigosa e longa guerra;
por mulher se causou tal dano nosso;
quem nos resituiu
de vós saiu, Senhora, o preço é vosso.
Virgem, nossa esperança, um alto poço
de vivas águas, que contino corre,
em que se matam pera sempre as sedes;
não de Mebrot, mas de David a torre,
donde socorro espero ao meu detroço,
assi tam perseguido como vedes;
de antre tam altas, tam grossas paredes,
de ferro carregado,
um coração coitado
chama por vós envolto em bastas redes,
?as sobre outras; porém sinais tenho
de ser do vosso bando,
que a vós bradando por piedade venho.
Virgem do sol vestida, e nos seus raios
claros envolta toda, e das estrelas
coroada, e debaixo os pés a lua,
são vindas minhas culpas e querelas
sobre mim, tantas! Valei-me aos desmaios;
de muitas, que possa ir chorando alg?a.
Não me deixaram desculpa nenh?a
os meus erros sobejos,
levaram-me os desejos
tantas ocasiões, indo ?a e ?a;
quem tormenta passou per toda a praia,
com os ventos contrastando,
saia nadando já co’ a vida, e saia!
Virgem, horto precioso, alto e defeso,
rico ramo do tronco de Jessé,
que floreceu tam milagrosamente,
custódia preciosíssima da Fé,
que vós só toda tivestes em peso,
Tendo um e o outro Sol sua luz ausente.
A alma que os seus enganos tarde sente,
altíssima Senhora,
por vós suspira e chora;
ontem minino, sou velho ao presente,
de dia em dia vou-me, de ano em ano,
à minha fim chegando,
dissimulando a vergonha e o dano.
Virgem andando aqui, já celestial,
e em corpo assi levada ao Céu empíreo,
sem ser mais cá de olhos humanos,
certa porta do Céu, dos vales lírio,
que nunca teve nem terá igual,
dada por só remédio a nossos danos
contra os demónios, sejam meridianos,
sejam da noite escura;
esperança segura
tais forças contra tais mestres de enganos,
com vosso esforço por terra e por mar,
não digo eu haver medo,
mas sair ao campo, ledo, e pelejar.
Virgem das virgens, como o tempo voa!
Nossa certa esperança,
por toda a vezinhança,
quanto gemido a toda a parte soa!
Quantas lágrimas caem mal derramadas!
Mas, posto de giolhos,
a vós os olhos, tudo o mais são nadas.
Epitáfio
De quão pouca terra satisfeita jaz
a que toda ela não merecia,
aquela que triste ou leda, como ia
assi punha tudo em guerra ou em paz.
Levou no-la a morte cruel, que desfaz
as melhores cousas com maior presteza.
Ah morte! oh mundo! a tua riqueza,
de quão pouca terra satisfeita jaz!